Não quero ser normal

Por: Gabriel Peveronni

“Não quero ser normal”, ou como um grupo musical foi capaz de inventar seu caminho próprio, raro e popular.

Foto: Fernanda Montoro

Foto: Fernanda Montoro

El Cuarteto de Nos, integrado durante os últimos vinte e cinco anos pelos irmãos Roberto e Riki Musso, Santiago Tavella e Alvaro Pintos, é um grupo musical formado em Montevidéu no finais dos anos 70 por legítimas, e as vezes antagônicas, razões: Roberto queria ser famoso como seus ídolos The Beatles (e John Travolta), Riki queria fazer música como seus ídolos The Beatles (e Woody Allen) e Santiago queria se divertir como seus ídolos The Beatles (e Andy Warhol). Alvaro apareceu depois. Trouxe a versatilidade para tocar diferentes ritmos, colaborando no simples fato de não parecer uma banda esquisita de jazz-rock com som de lata, quando procuravam ter um som parecido com os Beatles.

Admiravam os quatro de Liverpool, tal vez por isso a obsessão por ser um “quarteto”, ainda sendo três os integrantes fundadores. Coincidiram também no gosto pelo humor dos britânicos Monty Python (assim como Woody Allen, Leo Maslíah, etc), no sentimento de estranheza de tentar fazer pop e que saísse uma salada paródica à Frank Zappa, e sobre tudo na coleção de personagens enfermiços (“tão freaks”, segundo Adrián Dárgelos), na maioria moradores da imaginária e pré-adolescente Cidade de Tajo, construída pelos irmãos Musso quando ainda não tinham 10 anos. Entre suas primeiras músicas estão “Acapulco no se emborracha” (Acapulco não fica bêbado), quando ainda não eram compreendidos nem pelos roqueiros nem pelos cantores populares, e eles estavam muito longe de conhecer a sensação de que o público pedisse bis.

As músicas de El Cuarteto de Nos que começaram a tocar nas rádios na metade dos anos 80, na pós-ditadura uruguaia, colocaram o grupo no contexto da emergente geração de bandas de rock como Los Estómagos, Los Traidores, Los Tontos e La Tabaré. A formação era rock, elétrica, mas seu som era esquisito. A moda era Sex Pistols, The Cure ou The Clash e eles pareciam uma coisa deformada e sadiamente incorreta. Inolvidável foi “Andamio Pijuán” (Andaime Pijuán), um idiota que tomava banhos de alcatrão para não se ver no espelho e, coitado do Andamio, “um dia ficou dormido ao sol”. Ou os sexópatas integrantes da “Família Berrantes”, incluída a adolescente sadomasoquista que pede ao seu amante casual que se disfarce de Che Guevara. Mas principalmente o desembaraço de vestir roupas das suas tias e cantar versos visceralmente geracionais: “Estou danada, porque sou uma velha. Se saio maquiada, os moleques do bairro cuspem-me e atiram-me pedras”. Os discos “Soy una arveja” (Sou uma ervilha) de 1987, “Emilio García” de 1989 e “Canciones del corazón” (Canções do coração) de 1990, conformam a trilogia de “Cidade de Tajo” e uma primeira etapa em que eram uma banda minoritária e, por certo, inclassificável.

A glória repentina chegou na época do cd “Otra Navidad en las trincheras” (Outro natal nas trincheiras) no ano 1994. A música de El Cuarteto saiu da elite universitária precipitadamente. O grande público, especialmente crianças e adolescentes, sintonizou a onda iconoclasta e parricida das canções dos irmãos Musso, uma onda que já estava no ar para que o público se apropriara dela quando quisesse, assim como também o caráter inaceitável do discurso do Cuarteto para os setores mais conservadores da sociedade. Roberto Musso (violão e voz líder) foi mostrando um incipiente lado punk, aprendido dos colegas dos anos 80, tornou-se um pouco mais sério, e gerou um humor niilista com algumas grandes obras como “Oriental desertor”, que incluía o clichê punk “a pátria me importa um caralho”. Sem perder o humor pós “Tajo”, de forte conteúdo sexual em canções como “Solo un rumor” (“Apenas um boato”). Santiago Tavella (baixo e voz) encarnava, e interpretava muito bem, o looser psicótico-sexual e maníaco do idioma post-masliahno; um grande clássico são os jogos sex-maníacos da música “El calzoncillo a rayas” (“As cuecas listradas”). E Riki Musso (violão e voz) continuava criando os seus lendários personagens deformes: em “Soy un capón” (“Sou um capão”), o relator confessa porque cortou seus testículos com um estilete. As canções eram diretas e descaradas, mas continuavam funcionando na segunda, décima e centésima vez escutada. Além do humor óbvio do discurso, o grupo definia um estilo de rock de parodia que demonstrou funcionar perfeitamente, integrando ritmos e estilos também inaceitáveis ou de gosto duvidoso.

Depois do sucesso de 1994, demonstrado pelas 30.000 cópias vendidas do cd “Otra Navidad..”., aparecem novamente em 1995 com “Barranca abajo (Barranco abaixo), um disco tão autodestrutivo como lucidamente provocativo. O som do grupo estava longe de ser correto, afastou-se da variedade atingida no disco anterior e acrescentou capas de violões que impediram que “Vino en mi jeringa” (Vinho na minha seringa) e “Tupamaro” chegassem a ser hits nas rádios. Riki Musso, dirigindo os arranjos e a produção artística, radicalizou a linha punk-nerd do Cuarteto, o resultado foi um disco escuro que os devolveu à categoria de “raros” que ostentavam nos tempos de “Soy una arveja” e dos teclados dissonantes de Andrés Bedó, ocasional quinto do quarteto, e que tinham perdido momentaneamente no sucesso radiofônico de “Bó cartero” (Ei carteiro) e nas inspiradas piadas musicais de “Me agarré el pitito con el cierre” (Prendi meu pirulito com o zíper) e “El putón del barrio” (A galinha do bairro).

Nos discos seguintes “El tren bala” (O trem bala) de 1996, “¡Revista Esta!” 1998 e Cortamambo de 2000, demonstraram que a fábrica de fazer canções continuava sendo produtiva, mas explicitando a inevitável crise de identidade de um grupo que mostrava um discurso provocativo embora seus integrantes tivessem deixado de ser adolescentes muito tempo atrás. Velhos demais para o humor com acne que traziam da mitologia Tajo. Jovens demais para se entregarem à correção e aos códigos demagógicos de um rock latino que tornou anacrônicos aos velhos rebeldes dos 80 e a tudo aquilo que tivesse um som esquisito. Vários sucessos, que paradoxalmente nunca chegaram a ser hits, demonstraram que El Cuarteto de Nos não se rendia. “El día que Artigas se emborrachó” (O dia em que Artigas se embebedou)[1], canção que provocou o mais discutido escândalo na mídia montevideana da década, uma evidente ofensa ao herói nacional, exemplifica o poder revulsivo das canções de El Cuarteto. “No somos latinos”(Não somos latinos) aparece como outro manifesto, constatação de que o grupo estava longe de adotar o som e os códigos dominantes. Não foi fácil. Novamente tornaram-se uma banda minoritária e inclusive perderam o apóio do público que os seguia na primeira etapa da banda  –como nos começos. Novamente são acompanhados por uma nova geração de universitários e de roqueiros que procuram algo diferente. El Cuarteto sempre esteve ali; foi o público que entrou e saiu do seu ambiente.

Em 2004 a encarnação uruguaia do humor incorreto, estilo South Park, decidiu experimentar com um disco de “sucessos”. Os tempos eram outros: depois da crise financeira de 2002, as novas gerações procuravam músicas diretas que falaram de seus problemas, e aqueles que tinham olhado para outro lado nos anos 90, novamente encontraram em El Cuarteto um espelho honesto e autêntico onde refletir-se com humor e uma boa dose de cinismo. Não é nada fácil manter-se uruguayan idiot por sempre, mas com vinte anos de carreira o público de El cuarteto atravessava diferentes gerações e segmentos sócio-culturais. Embora não estivesse ativo, podia ser convocado se eles achavam a fórmula exata. Então tentaram com seu primeiro cd “grandes sucessos”. O som de El Cuarteto de Nos, e do disco, eram em si uma declaração de princípios. Cansados de ser desdenhados no ambiente rock do Rio da Prata, escolheram desta vez um repertório cem por cento elétrico, que por momentos parece estar sendo tocando pela banda mais demencialmente punk do planeta. Uma banda, por certo, capaz de qualquer coisa. De chamar, com humor, al suicídio intravenoso (“eu quero que um amigo ponha vinho na minha seringa”), até contar as desgraças de um homem, um tal Manfreddi (“O Deus dos infelizes não o deixou entrar / porque tinha abrigado a mais de meio Uruguai”). Duas jóias do novo disco: a versão onda Ramones do hit bizarro “El putón del barrio” e o novo hino punk confessional “No quiero ser normal” (Não quero ser normal).

A chave da nova era de El Cuarteto de Nos estava no velho assunto do equilíbrio, de procurar um terceiro olhar sensato. Convidar a Juan Campodónico, integrante de Bajo Fondo, para tomar conta da produção artística, foi baixando progressivamente a radicalidade de Musso e os impulsos bizarros de Tavella, para potencializar o talento compositivo de Roberto, que se transformaria no protagonista dos próximos discos, na cabeça criativa do grupo. Campodónico, no seu primeiro trabalho com El Cuarteto de Nos, trabalhou com um repertório que derramava pequenas e grandes genialidades. Em outras palavras: poliu o melhor diamante bruto da música popular uruguaia contemporânea. Tudo estava pronto para uma segunda ou terceira vida da banda, com seus integrantes pisando os 40 anos como se tivessem 20. Freaks, populares, raros.

No ano 2006 saiu à venda o disco “Raro”. O explosivo coquetel sonoro, tramado por Campodónico, funcionou de maravilha com as composições de Roberto Musso, que levou ao limite uma novidade que o posicionaria ainda mais alto como letrista: seu touch tornou-se verborrágico, focalizando-se em histórias que giram em volta a perdedores e aproximam-se ao estilo hiphop de Eminem. “Yendo a la casa de Damián”(Indo à casa do Damián) foi um hit imediato, o maior sucesso do grupo em toda sua história. E o rap agalopado de Musso combinou muito bem com violões ruidosos, embora não mais que os dos Strokes. Paradoxalmente El Cuarteto de Nos confirma-s como um grupo “raro” no mesmo momento em que vai achando um caminho que pode ser definido como pragmático. O personagem da capa –construído em fotoshop com elementos faciais dos quatro históricos – define o freak ideal de um disco perfeito, e possivelmente insuperável. Um disco que os transformou numa banda internacional e que os tornou novamente populares –mais consistente e madura que nos tempos de ”Otra Navidad en las trincheras”.

Que caminho vai tomar El Cuarteto depois de “Raro”? Vai procurar um antídoto anti-sucesso como ocorreu com “Barranca abajo”? Roberto conseguiu ser famoso (e um excelente letrista). Santiago diverte-se como nunca (e reinventa à banda como se fosse uma obra pop conceitual em si mesma). Alvaro leva o ritmo como sempre quis (e continua sendo quem ordena a equipe desde o fundo). O problema foi que Riki deixou de se sentir à vontade. Ele já não fazia, nem defina, a música nem o som; para isso estava o outro, o produtor, o quinto do Cuarteto chamado Juan. Assim começou a bipolaridade, o novo desequilíbrio, que acabou num disco, onde eles têm um som como nunca antes, mas deixa abertos novos paradoxos e debates. “Bipolar”, ano 2009, inclui uma canção que com certeza define essa nova etapa: “Nada me da satisfacción” (Nada me satisfaz) e possivelmente exemplifique o paradoxo de ser raro e popular.

El Cuarteto é uma entidade criativa que tem sobrevivido e reagido a diferentes épocas e contextos. Tem construído uma obra musical consistente, original, que funciona como um espelho de uma possível contracultura montevideana urbana: uma identidade também rara que duvida neste final de década –na sua parte mais vital– entre abraçar a um país progressista, de uma esquerda homogênea, bem-sucedida e pragmática, ou o difícil caminho da dissidência, do desterro, a quimera da experimentação e o risco. A história continua. A canção é a mesma. Ou não.

“Não quero ir onde todos vão

Eu odeio o Natal.

Muitos vão dizer: “isso está mal”

Não quero ser normal

E não sei por que será

Se algo começa a me gostar

Nunca está no ranking, raiting, nem no top twenty

E se isso se tornar popular

Me aborrece e já não me interessa mais”

(fragmento de “Não quero ser normal”)


[1]N. de la T. Artigas: Prócer nacional uruguaio, chamado “Pai da pátria”.

Foto: Fernanda Montoro

Foto: Fernanda Montoro


ROBERTO MUSSO: entrevista bipolar

sobre RIKI: “Em primeiro lugar quero dizer que Riki continua formando parte da entidade Cuarteto de Nos. Não foi embora para sempre, simplesmente pediu para tomar um descanso por tempo indeterminado e hoje não está na formação do show ao vivo, mas penso que é apenas um parêntese na história do grupo e, em pouco tempo, ele vai voltar às turnês e os shows.

sobre JUAN: “Já faz já 5 anos e 3 discos que formamos uma equipe com Juan, tem sido uma peça fundamental na evolução que teve o grupo, não apenas no som em si, mas artisticamente em geral. O resultado é incontestável em quanto ao reconhecimento do público e da crítica que esses discos obtiveram, responsáveis diretos de que El Cuarteto seja um grupo conhecido e respeitado fora de fronteiras, e que no Uruguai os filhos dos nossos fãs dos anos 80 e 90 nos descobrissem como uma banda que tem um som atualizado a estes tempos”.

sobre RARO Y BIPOLAR:Raro é raro e Bipolar é raro também embora as vezes seja bipolar e isso pareça estranho… Mas além do palavreado, não há realmente um conceito estabelecido de bipolaridade plasmado no CD, simplesmente porque não se procurou. O nome saiu porque estava a música “Bipolar” que inspirou à turma de Land, responsável da arte da capa, e tinha algumas outras músicas que tocavam tangencialmente o assunto, por exemplo “Doble identidad”, (Dupla identidade) mas há uma grande quantidade de músicas, “unipolares”.

sobre AS LETRAS MUSSO: “Penso que nas letras de “Bipolar” tentei levar ao limite aquilo que em “Raro” tinha percebido como uma proposta, ou uma interessante linha de trabalho a seguir. Pode ser comparado a quando editamos “Canções do coração” em 1990, onde havia várias canções que quebravam o estilo que vínhamos fazendo e cuja explosão foi concretizada em “Outro natal nas trincheiras”. Aconteceu que fui compondo muitas letras cujo conceito, extensão, rimas e jogos com o idioma faziam que a maneira de serem interpretadas estivera muito próxima do rap, porque um formato pop tradicional não podia contê-las, e então obviamente tive que procurar referências no estilo, como Eminem, Peyote Asesino, o Kanye West por citar alguns exemplos”.

Por Gabriel Peveroni


Enlaces

www.cuartetodenos.com.uy

www.myspace.com/cuartetodenosoficial